InícioBlogLegislação e Normas
Voltar para todos os artigos
Legislação e Normas

Tabela de Piso Mínimo de Frete da ANTT: Como Funciona e Como Usar a Seu Favor

A tabela é um piso, não um preço. Entenda a estrutura de cálculo, quando ela é reajustada e por que aceitar o valor da tabela pode significar rodar no prejuízo.

Equipe Alfrete

Equipe Alfrete

Especialistas em Transporte de Cargas

01 de agosto de 202611 min de leitura
Tabela de Piso Mínimo de Frete da ANTT: Como Funciona e Como Usar a Seu Favor

O que a tabela é — e o que ela não é

A Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC) foi instituída pela Lei nº 13.703/2018, e é ela que dá origem à tabela publicada pela ANTT.

O nome já diz o essencial, mas vale sublinhar porque é a origem de quase toda confusão sobre o assunto: é uma tabela de piso. Ela estabelece o valor mínimo a ser pago em uma operação de transporte rodoviário de carga contratada entre o transportador e quem contrata o serviço.

Isso significa duas coisas que costumam ser lidas ao contrário:

  • Não é tabela de preço sugerido. Ela não diz quanto o frete deve valer. Diz abaixo de quanto ele não pode ser pago.
  • Não é teto. Cobrar acima da tabela é absolutamente normal e, como veremos, frequentemente necessário.

A finalidade declarada da política é impedir que o frete seja contratado por valor que não cubra sequer os custos operacionais básicos — situação que, historicamente, empurrou parte do setor a operar consumindo o próprio patrimônio.


1. Como o valor é composto

O piso não é um número tirado do nada. Ele é calculado a partir de dois coeficientes:

CCD — Coeficiente de Custo de Deslocamento

É o custo por quilômetro rodado. Agrega os custos que variam com a distância:

  • combustível;
  • pneus e rodagem;
  • manutenção;
  • lubrificantes;
  • depreciação atribuída ao uso.

CC — Coeficiente de Custo de Carga e Descarga

É o custo do tempo parado durante o carregamento e o descarregamento. Ele existe porque o caminhão parado em doca continua consumindo custo fixo e ocupando o motorista, e essa parcela precisa ser remunerada.

A fórmula geral

Piso mínimo = (CCD × Distância em km) + CC

Os coeficientes variam conforme:

  • o número de eixos do conjunto — de 2 eixos até composições de 9 eixos;
  • o tipo de carga transportada;
  • a faixa de distância da operação.

2. Os tipos de carga considerados

A tabela distingue operações porque elas têm custos estruturalmente diferentes. As categorias contempladas incluem:

TipoO que abrange
Carga geralMercadorias acondicionadas — caixas, sacos, fardos, paletes
Granel sólidoGrãos, fertilizantes, minérios
Granel líquidoCombustíveis, produtos químicos líquidos, leite
FrigorificadaPerecíveis com controle térmico — carnes, laticínios, medicamentos
PerigosaProdutos classificados como perigosos, em suas variações
NeogranelProdutos que se agrupam por natureza — veículos, bobinas, produtos florestais
ConteinerizadaTransporte de contêineres

A lógica das diferenças é direta: carga frigorificada exige equipamento de refrigeração que consome combustível adicional; carga perigosa exige habilitação, equipamento e seguro específicos; granel tem perfil de carregamento distinto de carga fracionada.


3. Quando a tabela é atualizada

A legislação prevê atualização periódica, com publicação semestral pela ANTT — tradicionalmente nas janelas de janeiro e julho.

Há também previsão de revisão extraordinária quando o preço do óleo diesel sofre variação relevante, nos termos definidos pela lei e pela regulamentação da agência. O gatilho existe justamente porque o diesel é o insumo dominante do CCD: uma alta expressiva no combustível tornaria o piso defasado em poucas semanas.

Como os percentuais de gatilho, os prazos e a metodologia podem ser alterados por resolução, a orientação prática é uma só: consulte sempre a resolução vigente no portal da ANTT antes de usar valores em negociação. Tabela de piso é informação com data de validade curta, e circular pelo setor uma planilha desatualizada é comum.


4. O que a lei prevê em caso de descumprimento

A Lei nº 13.703/2018 estabelece que, contratado o transporte por valor inferior ao piso, o contratante deve pagar ao transportador indenização correspondente ao dobro da diferença entre o valor efetivamente pago e o piso aplicável.

Há também previsão de sanções administrativas no âmbito da ANTT.

Vale a mesma observação feita em outros temas regulatórios: conhecer a penalidade é diferente de executá-la. A cobrança depende de prova documental — CT-e emitido, comprovante de pagamento, registro da distância e do tipo de carga. Sem documentação organizada, a discussão não sai do lugar.

Uma observação de contexto: a política foi objeto de questionamentos judiciais desde sua criação, e o tema teve desdobramentos nos tribunais superiores. Se a discussão jurídica for relevante para uma situação concreta sua, verifique o estado atual com um advogado — este texto trata do funcionamento prático da tabela, não do contencioso.


5. O ponto mais importante: piso não é o seu custo

Aqui está o erro que custa mais dinheiro aos transportadores, e ele não tem nada de jurídico.

A tabela é calculada com coeficientes médios nacionais. A sua operação não é média. Ela tem a sua rota, o seu consumo, o seu perfil de manutenção, a sua ociosidade de retorno, o seu custo fixo.

Consequência: é perfeitamente possível que o piso da ANTT esteja abaixo do seu custo real em determinada operação. Aceitar o valor da tabela como se fosse preço justo, nesse caso, é aceitar prejuízo com respaldo legal.

Situações em que isso acontece com frequência:

  • Rota sem carga de retorno. O piso remunera o deslocamento contratado, não o retorno vazio. Se você volta vazio, o custo do retorno precisa estar no preço.
  • Custo fixo alto por veículo. Frota financiada recentemente tem custo fixo mensal bem acima da média usada em coeficiente.
  • Baixa quilometragem mensal. Custo fixo diluído em poucos quilômetros eleva muito o custo por km.
  • Operação com muitas paradas ou entregas fracionadas.
  • Região com preço de diesel acima da média nacional.

6. Como usar a tabela na prática

O uso correto tem três passos.

Passo 1 — Conheça o seu custo por quilômetro

Antes de consultar qualquer tabela, você precisa do seu número: custos fixos mensais divididos pela quilometragem mensal, mais os custos variáveis por km. O método está detalhado no artigo sobre cálculo do preço do frete por km.

Sem esse número, a tabela vira sua única referência — e aí ela deixa de ser piso e vira teto na prática.

Passo 2 — Compare

Coloque os dois lado a lado para a operação concreta:

Valor
Piso ANTT para a operaçãoR$ 3.900
Seu custo total da operação (ida + retorno + fixo rateado)R$ 3.650
Margem se fechar no pisoR$ 250 (6,4%)

Nesse exemplo, fechar no piso deixa margem apertada mas positiva. Em outra rota, com retorno vazio de 700 km, o mesmo piso poderia significar prejuízo.

Passo 3 — Negocie a partir do piso, não até ele

O piso é o argumento de que existe um mínimo legal. O seu custo é o argumento de quanto você precisa. Os dois se somam:

"O piso da ANTT para essa operação é R$ 3.900. Como não há carga de retorno nesse destino, meu custo considerando o retorno é R$ 4.400. Meu valor é R$ 4.900."

Essa frase é muito mais forte que "não dá por menos de cinco mil". Ela mostra método, e método muda o tom da negociação.


7. O que manter organizado

Para usar a tabela e, se necessário, sustentar uma cobrança:

  • CT-e de cada operação, com distância, tipo de carga e valor;
  • comprovantes de pagamento do frete;
  • registro da configuração do veículo (número de eixos) usada em cada viagem;
  • a resolução vigente da ANTT na data da operação — o piso aplicável é o da época, não o de hoje;
  • seu custo por quilômetro atualizado, revisado sempre que o diesel muda.

O penúltimo item é sutil e importante: se você for discutir uma operação de seis meses atrás, o piso relevante é o daquela data.


Conclusão

A tabela de piso mínimo é uma ferramenta útil e mal aproveitada. Mal aproveitada porque a maioria a trata como referência de preço, quando ela é referência de mínimo — e porque muitos a consultam sem conhecer o próprio custo, o que remove justamente o parâmetro que daria sentido à comparação.

Use-a assim: consulte a resolução vigente, compare com o seu custo real da operação completa (incluindo retorno), e negocie a partir do maior dos dois.

Se o seu custo for maior que o piso, o piso não é o seu preço. É apenas a prova de que o valor que te ofereceram é ilegal, além de ruim.

Aviso. Este texto é informativo e descreve a estrutura geral da política de pisos mínimos. Coeficientes, valores, prazos e metodologia são definidos em resoluções da ANTT e mudam periodicamente; a matéria também comporta discussão jurídica. Consulte sempre a resolução vigente no portal oficial da ANTT e, para casos concretos, um advogado.

Simplifique o controle dos seus fretes com o Alfrete

Chega de planilhas manuais. Calcule lucros por viagem, comissões de motorista, controle manutenções e emita recibos em PDF pelo celular ou computador.

Equipe Alfrete

Equipe Alfrete

Especialistas em Transporte de Cargas

Produzindo conteúdo prático e orientações financeiras para impulsionar a rentabilidade de transportadoras, frotistas e motoristas autônomos em todo o Brasil.

Artigos Recomendados

Legislação e Normas

Seguro de Carga: A Diferença entre RCTR-C e RCF-DC que Todo Transportador Precisa Saber

RCTR-C cobre danos à carga por acidente. RCF-DC cobre roubo e desaparecimento. São apólices diferentes, com finalidades diferentes — e a averbação é o que faz qualquer uma das duas valer.

Ler artigo
Economia e Manutenção

ARLA 32: Quanto Custa, Quanto Consome e Por Que Economizar Nele Sai Caro

O ARLA 32 representa uma fração pequena do custo da viagem, mas está ligado a um dos componentes mais caros do caminhão moderno. Veja como calcular o consumo, incluir no custo por km e evitar os erros que danificam o sistema SCR.

Ler artigo
Gestão Financeira

Rodar Vazio: Quanto Custa o Retorno Sem Carga e Como Reduzir a Ociosidade

Cada quilômetro rodado vazio queima diesel, gasta pneu, deprecia o caminhão e não gera um centavo. Aprenda a calcular o custo real do retorno vazio e a construir uma malha de retorno que reduza a ociosidade.

Ler artigo